terça-feira, 12 de outubro de 2010

A ESCOLA DOS COLONIZADORES

PERÍODO 1
A ESCOLA DOS COLONIZADORES
O COLÉGIO DOS JESUÍTAS
Antes de ser uma cidade, São Paulo foi uma escola. No atual Pátio do Colégio, junto à encosta do Tamanduateí, o Colégio dos Jesuítas foi o começo da nossa cidade. A colonização do território, naquela época, teve como ponta de lança uma escola.O processo de colonização tinha nas ordens religiosas, principalmente na Companhia de Jesus, um de seus principais instrumentos. Essa intenção de ocupação se tornava real, palpável e concreta a partir da construção de escolas. O edifício da escola materializava a nova doutrina difundida entre as crianças índias e os filhos dos colonizadores, e o papel de instrumento da colonização refletia-se no edifício. Os assentamentos de frente da ação colonizadora tinham, quase sempre, um colégio, uma escola, uma missão ou um seminário.
O Pátio do Colégio, na época Largo do Palácio, c. 1862Crédito: Militão Augusto de Azevedo
A reação dos índios à doutrina dos jesuítas não foi tranqüila. Ninguém passa a acreditar em um Deus de um dia para o outro. Houve resistência da cultura indígena, ao mesmo tempo que os bandeirantes paulistas, interessados em aprisionar os índios, entravam em conflito com os catequizadores. Os jesuítas foram expulsos; mais tarde voltaram e retomaram a catequese. O colégio, erguido em uma encosta, funcionava como uma fortificação: os jesuítas pensavam em se proteger tanto dos bandeirantes quanto dos próprios índios.
Pátio do Colégio. Crédito: Juca Martins
Sob a responsabilidade das ordens religiosas, as construções escolares, como o Colégio de São Paulo de Piratininga, começaram a configurar um padrão de escola religiosa, que abrigava a moradia dos religiosos, as salas de aula, a igreja e demais instalações. As construções tinham características de conventos e seminários. Hoje em dia, da antiga construção do Pátio do Colégio só resta um segmento de parede em taipa de pilão e as catacumbas sob a igreja.
Planta da cidade de São Paulo de 1841Crédito: Rufino Felizardo e Costa
Em 1653, os jesuítas conseguiram dominar os índios e começaram a impor sua doutrina novamente. Foi construído um anexo ao colégio, onde foram instalados paulatinamente os primeiros cursos de filosofia, teologia, artes, biblioteca e capela, ocupando uma área de mais de mil metros quadrados. Para essa construção foi utilizada a técnica da taipa de pilão, em que as paredes são feitas de barro comprimido em formas de madeira.Em 1745, houve outra ampliação, e em 1759 a ordem jesuíta foi expulsa por decreto do Marquês de Pombal, responsável pela Secretaria de Negócios Estrangeiros durante o reinado de d. José em Portugal. O governo apropriou-se dos bens da Companhia de Jesus, e o antigo casarão colonial foi completamente descaracterizado por profundas reformas. Entre 1765 e 1908, funcionou como Palácio dos Governadores. Nesse período, um desmoronamento resultou na perda do precioso patrimônio da igreja. Em 1932, o Palácio do Governo foi transferido e o velho colégio passou a abrigar a Secretaria da Educação, que lá permaneceu até 1953. O edifício assumia uma função mais próxima de sua vocação original. O ano de 1954 marca a retomada do projeto original. A Companhia de Jesus recebe de volta as instalações e dá-se início à reconstituição do conjunto, nos moldes da terceira construção, quando o prédio ainda era colégio e não edifício público, e permanecem, remanescentes, a cripta, parte de uma parede em taipa de pilão e o antigo torreão. Atualmente o conjunto abriga o Museu de Anchieta, com peças da ordem religiosa do período da colonização do Brasil. Escola, seminário, Palácio do Governo, Secretaria de Estado e museu. Por todas essas transformações passou o sítio onde se originou a cidade de São Paulo. É importante lembrar que a urbanização da nossa cidade teve na escola a referência para sua definição original. A história do Pátio do Colégio se confunde com a da cidade de São Paulo. A execução pioneira da construção original, suas reformas, sua destruição, a construção para abrigar outro uso, de novo a destruição e finalmente a construção de uma réplica (o que conhecemos hoje como o Pátio do Colégio é uma reconstituição quase caricata do edifício original) são etapas reveladoras de um processo pelo qual passou e passa a nossa cidade.
PERÍODO 2A REPÚBLICA
ESCOLA OU CATEDRAL?
Em 1894, cinco anos após a proclamação da República, a Escola Normal de São Paulo foi instalada em edifício especialmente construído para esse fim na Praça da República. A escola depois foi chamada de Escola Normal da Praça da República; em seguida, de Instituto de Educação Caetano de Campos; posteriormente, de EEPSG Caetano de Campos. Hoje funciona no local a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. A Escola Estadual Caetano de Campos nasceu em 1846, a partir das determinações do Ato Adicional de 12 de agosto de 1834, que conferia às províncias a atribuição de legislar sobre a instrução pública, inclusive criando estabelecimentos próprios para tal fim. Com essa responsabilidade, foram fundadas nas diversas províncias – Rio, Minas, Bahia e São Paulo – as primeiras Escolas Normais. Seu primeiro prédio foi junto à Catedral do Largo da Sé. Ao longo de sua história, a escola chegou a ser extinta duas vezes e mudou diversas outras de prédio; em 1875 instalou-se junto à Escola de Direito do Largo São Francisco, em um edifício que mais tarde sediaria a Câmara Municipal. Depois foi transferida para um sobrado na Rua do Carmo, para a Praça da República, para o antigo prédio do Colégio Porto Seguro, na Praça Roosevelt, e, finalmente, para a Rua Pires da Mota, no bairro da Aclimação, onde está até hoje.
A mudança para a Praça da República em 1894, bem como a sua saída em 1978, caracterizam momentos significativos no estudo da relação da escola com a cidade. A construção de um prédio escolar na Praça da República assumiu um significado especial nos rumos que a educação tomava no país e, em particular, na província de São Paulo, bem como afirmou o rumo de crescimento da cidade.
Escola Normal (com dois andares), c. 1895Crédito: Marc Ferrez
Era plano do Império construir uma catedral no chamado Largo Sete de Abril (atual Praça da República). Se desde a colônia a educação esteve sob responsabilidade da Igreja ou de instituições religiosas, a construção da Escola Normal em terreno do antigo Largo dos Curros (atual Praça da República) marcou a orientação laica dos valores da Primeira República. Foi o governador da província de São Paulo (Francisco Rangel Pestana) que em 1890 autorizou a transferência de 200 mil cruzeiros que seriam dedicados à construção da catedral para a construção da Escola Normal.
Escola Normal já com três andares, c. 1940Crédito: Hildegard Rosenthal
O prédio novo da Escola Normal tornou-se um símbolo da República e fixou-se como referência e pólo difusor de teorias científicas e pedagógicas. O conceito de Escola Modelo era aplicado à Escola Normal, tanto para os alunos de 11 a 14 anos como para as crianças menores, no jardim-de-infância que se situava nos fundos da edificação.
PERÍODO 3TEMPOS MODERNOSO PROGRAMA DE NECESSIDADES
Na década de 1930, São Paulo ultrapassou a marca de 1 milhão de habitantes. O número de vagas oferecidas pela rede pública de ensino era a pauta da sociedade. O mundo já passara por uma guerra, e no Brasil idéias modernizadoras se manifestavam organizadamente desde 1922. A partir de 1936 e 1937, já com métodos de ensino modernos, escolas que abrigariam novos ideais de educação começam a ser construídas. Uma grande reforma no sistema educacional brasileiro estava em curso. Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo foram responsáveis pela reforma do sistema educacional de diversos estados do Brasil, como Bahia, Ceará, Distrito Federal e São Paulo, implementando no país uma visão de educação moderna e democrática. Existiam questões a resolver – o número de vagas, por exemplo –, mas a atenção estava sobre o pensamento que definiria como deveria ser a escola voltada para uma nova educação. Em arquitetura isso se chama “programa”. O programa de uma edificação é o conjunto de necessidades que um projeto deve contemplar na construção e o roteiro de como isto deve estar disposto no novo prédio. O “programa” define o número de salas de aula, determina se a escola terá uma biblioteca ou não, se incluirá dentro do prédio um posto de saúde e, principalmente, estabelece como tudo deve estar disposto dentro da edificação. A disposição espacial de todos os itens de um programa configura a implementação de uma visão educacional. O momento era de implantação e construção de um sistema educacional moderno, e para tal seriam necessárias escolas modernas. Com essa preocupação foi assinado um convênio entre o Estado e a Prefeitura da capital. Perto de cem escolas foram criadas pelo Convênio Escolar, sob a coordenação dos arquitetos Hélio Duarte e uma equipe de arquitetos.
Perspectiva do Ginásio Maria Auxiliadora em Barretos. Arquitetos: Oswaldo Correa Gonçalves e Rubens Carneiro Vianna, 1953
A sociedade e a cidade estavam em um novo momento. A escola iniciava uma trajetória de democratização da educação, de extensão do direito à educação para além das elites, alcançando a classe média. Os diversos bairros da cidade, já estruturados, tinham demanda por escolas. O mundo moderno, as máquinas, a industrialização, as idéias que estavam pelo mundo achavam-se presentes também em São Paulo, “o maior centro industrial da América Latina”. É importante ressaltar que quem escreve o texto acima não é um arquiteto, e sim um educador, responsável pela elaboração e implantação de um novo sistema educacional no país. Se fizermos rápidos cálculos, poderemos perceber a influência dessa atitude em uma geração e entender a efervescência cultural do final da década de 1950 e início da de 60. Não se tratava de mais um estilo, e sim, de uma atitude diante da educação. Por trás dessa nova proposta educacional estava um projeto de país, uma busca da identidade nacional, característica do movimento moderno desde suas origens, em 1922.
Praça da Sé, tendo ao fundo a catedral em construção, c. 1940Crédito: Hildegard Rosenthal
O nascimento de uma Metrópole
A partir do final do século XIX as elites cafeeiras que chegavam à capital paulista promoveram uma reformulação profunda do espaço urbano, criando uma cidade moderna e repleta de fronteiras
por Mônica Raisa Schpun
ACERVO DA FUNDAÇÃO PATRIMÔNIO HISTÓRICO DA ENERGIA DE SÃO PAULO
Instalação dos trilhos para o bonde elétrico no cruzamento da rua Direita com a rua São Bento, em 1902
No final do século XIX as elites paulistas começaram a deixar suas fazendas no interior do estado para se instalar nas cidades. Enriquecidas pela exportação do café, escolheram especialmente a capital como destino, em um momento em que São Paulo vivia uma verdadeira explosão urbana. Esses novos moradores iniciaram uma remodelação do espaço, adaptando a cidade aos novos gostos e ao ideário dessas elites, detentoras do poder político estadual e nacional. Essa transformação gerou uma São Paulo que exibiu, na organização dos espaços e na forma de ocupação da cena urbana, toda a complexidade de um crescimento extremamente brusco e veloz, todos os conflitos sociais que a atravessam e toda a diversidade de sua população. A metrópole que surgiu dessa metamorfose passou a ser marcada por grandes contrastes, uma cidade de inúmeras fronteiras.A primeira delas foi a que opôs modernidade e tradição. A explosão paulistana veio acompanhada de uma imensa aspiração de modernidade por parte das elites, otimistas com o potencial de progresso da nova metrópole que nascia. Pretendendo apagar os traços que lembrassem o passado pacato e provinciano, os ritmos e as paisagens da antiga São Paulo, a nova lógica queria aproximar a cidade de metrópoles como Nova York, Chicago, Londres e Paris e torná-la o novo coração econômico do país. As demolições, as construções e as transformações foram efetivamente criando um novo cenário: prédios mais altos, trilhos de bondes seguindo a eletrificação, ruas mais largas, parques e praças em estilo art-nouveau, viadutos de metal e arquitetura eclética, composta de elementos neoclássicos, empregando novas técnicas e materiais de construção.O processo, contudo, é complexo. Ritmos e estruturas urbanas não se apagam num piscar de olhos. A velocidade do crescimento e a falta de planejamento geraram um descompasso visível entre a urbanização e as exigências criadas pela explosão demográfica: entre 1910 e 1920, a população paulistana aumentou 65%, ao passo que, num intervalo de tempo próximo, de 1908 a 1922, o número de passageiros dos bondes da Light cresceu 450%. Duas São Paulo conviviam lado a lado, reforçando com isso os contrastes. Cada carroça ou animal de carga que atravessava o centro, atrapalhava o fluxo já comprometido pela existência de ruas estreitas e tortuosas. Sublinhava, por oposição, a presença de automóveis e bondes elétricos. Ao mesmo tempo, cada novo arranha-céu deixava ainda mais baixas as construções antigas que o rodeavam, esmagadas pelo peso de sua sombra. A sede de verticalidade não se justificava pela falta de espaço, mas por um desejo de modernização que queria dar a São Paulo uma imagem de metrópole.
© GUILHERME GAENSLY
O viaduto do Chá em 1900, passando sobre o vale do Anhangabaú: a moderna estrutura de ferro contrasta com as casas antigas
As torres eram os ícones por excelência da nova cidade. Torres de fábricas, torres de arranha-céus. Elas conviviam, no entanto, com as torres das velhas igrejas coloniais, parâmetros urbanos ainda válidos para a localização e os deslocamentos dos cidadãos. Com suas festas, marcos do calendário anual, estas sinalizavam itinerários urbanos privilegiados, tradicionalmente percorridos pelas procissões.A segunda fronteira que salta aos olhos é a social. Os lugares onde vivem e circulam as elites são testemunhas de seu sucesso econômico, tão grande quanto recente. O grupo construiu, para si mesmo, e a seus olhos, uma cidade verdadeiramente moderna, provendo o espaço paulistano de todos os equipamentos, inclusive de lazer, que permitissem a seus membros se reconhecerem como grupo dominante e se orgulharem de sua obra. Assim, o processo de transformações do espaço urbano combinou o crescimento caótico com uma política paralela que organizou, para as elites, uma cidade dentro da cidade, circuitos exclusivos e diferenciados.Reforma do centroO núcleo urbano original, transformado em centro, foi totalmente refeito. Suas praças e jardins públicos começaram a ser reorganizados a partir da década de 1880. Entre os anos de 1900 e 1910 inúmeras obras transformaram completamente a paisagem urbana. A reformulação foi fruto, antes de mais nada, dos projetos do prefeito Antônio Prado, realizados durante seus quatro mandatos consecutivos (1899-1910), e, em seguida, do plano Bouvard de reestruturação do centro. Novas ruas e praças foram abertas e alguns eixos principais, alargados. Criou-se o parque do Anhangabaú e reformam-se os jardins da praça da República. A praça da Sé foi ampliada e teve início a construção da nova catedral, em 1913. A região adquiriu então ares fortemente europeus, com seus passeios sofisticados, gramados bem cortados e o estilo arquitetônico de certos edifícios, como o Teatro Municipal (1911), inspirado na Ópera de Paris.
ARQUIVO DO JORNAL O ESTADO DE S. PAULO
Obras de urbanização da companhia City no bairro do Pacaembu em 1926. Ao fundo, o bairro de Higienópolis. Com a chegada das massas ao centro, as elites migraram para os bairros adjacentes
O centro concentrou, nos novos e ecléticos palacetes, o mercado financeiro, o comércio sofisticado e os espaços de lazer destinados às famílias ricas e aos homens de negócios. O chamado Triângulo, delimitado pelas ruas Direita, São Bento e 15 de Novembro, aliou-se às demais áreas refeitas, para compor o circuito voltado às elites. Dali foram afastados todos aqueles que não podiam enfrentar uma inflação imobiliária exorbitante: entre 1916 e 1936, o preço do metro quadrado aumentou 450% na parte mais valorizada do centro e 364% nos outros setores centrais, menos procurados.Também fez parte do processo de urbanização uma separação cada vez mais nítida entre zonas comerciais e zonas residenciais. O centro tornou-se caro demais e dominado pelas atividades comerciais e financeiras. As zonas residenciais também foram delimitadas. Os casarões das elites se instalaram nas regiões altas e mais sofisticadas, como os Campos Elísios, Higienópolis e, em seguida, o espigão da avenida Paulista, aberta em 1891. Por outro lado, as habitações populares, deslocadas do centro pela especulação imobiliária, concentraram-se nas zonas baixas, próximas aos rios, onde os efeitos das cheias faziam-se freqüentemente sentir.O lazer também foi segregado, com fronteiras bem delimitadas. Do lado das elites, os clubes exerceram um papelchave: eram espaços privados que garantiam sociabilidade exclusiva. Alguns se destacavam por sua sofisticação, como o Jockey Club de São Paulo (1876), o Club Athlético Paulistano (1900), o Automóvel Clube (1908), a Hípica Paulista (1911) e o Harmonia (1930).
ACERVO DA FUNDAÇÃO PATRIMÔNIO HISTÓRICO DA ENERGIA DE SÃO PAULO - FPHESP
Avenida Paulista no início do século XX: as chácaras convivem lado a lado com as novas mansões
Os espaços públicos que acolheram as práticas de lazer trouxeram a marca dessa fronteira social. O exemplo do carnaval é eloqüente. No início do século XX, o carnaval de rua pertencia às elites. As famílias desfilavam, ricamente fantasiadas, em carros que compunham o tradicional corso da avenida Paulista. A festa favorecia os encontros amorosos, os flertes e às vezes a formação de futuros casais. Segundo a mesma lógica, essas famílias não pensariam em participar dos desfiles carnavalescos do Brás, freqüentados por italianos e espanhóis.O povo na ruaNo final dos anos 20, alguns nostálgicos lamentam, em inúmeros registros jornalísticos, “o fim da festa carnavalesca”. Trata-se, na verdade, do momento em que as elites deixam as ruas durante o carnaval. A ascensão social de algumas categorias de imigrantes e a emergência das camadas médias foram acompanhadas pelo processo de difusão do automóvel. Algumas famílias de classe média já tinham acesso, por exemplo, ao aluguel de um carro para desfilar no corso, que tornou-se menos reservado às elites. A festa viveu uma inversão. É assim que, desde o final dos anos 20, as ruas começaram a ser ocupadas pelas camadas populares durante o carnaval, e as elites transformaram-se, progressivamente, em espectadoras da festa.Se, ao instalar-se na cidade, na virada do século, este grupo dominante tinha procurado reestruturar os espaços públicos para ocupar os pontos privilegiados da cidade, os anos 20 traziam indícios de um movimento inverso. Com o crescimento acelerado da população e o surgimento do fenômeno inédito da multidão urbana, aos olhos dessa elite as distâncias sociais não podiam mais evitar de forma suficientemente eficaz a proximidade física nos espaços públicos. O grupo começou, então, a deixar a rua e a praça pública em benefício de locais privados e reservados. O carnaval de rua popularizou-se, enquanto os bailes à fantasia, em clubes ou salões privados, além de proporcionarem às elites as ocasiões de festa por elas tão apreciadas, afirmaram-se por sua sofisticação e pela garantia de que todos os participantes pertenciam à mesma classe social.
ARQUIVO DO JORNAL O ESTADO DE S. PAULO
Mulheres passeiam na esquina da rua 15 de Novembro com a travessa do Comércio, 1906. A região, conhecida como Triângulo, era a mais sofisticada da cidade na época
A fronteira dos sexosPor fim, uma última fronteira distinguia as relações de homens e mulheres com o espaço da cidade. Na virada do século passado as mulheres das camadas dominantes eram as mais novas personagens a despontar na cena urbana. As mulheres pobres freqüentavam a cidade desde há muito tempo, mas o processo de urbanização veio acompanhado de uma série de regras que limitaram essa presença, empurrando vendedoras e trabalhadoras flutuantes para locais mais afastados e preservando as áreas centrais para as nobres. Enquanto isso, as mulheres das novas camadas médias pareciam circular mais livremente pela cidade que as ricas, extremamente vigiadas.Para as mulheres de “boa família”, os locais de sociabilidade feminina ainda eram raros, basicamente restritos à zona chique do Triângulo. Equipada com confeitarias, salões de chá e sorveterias, seu comércio sofisticado atraía a presença cada vez mais numerosa dessas novas clientes, que saíam para olhar vitrines e fazer compras.Num momento em que o corpo das mulheres de elite desfilava mais – ou ao menos preparava-se para isso –, sob o olhar dos homens, era necessário que elas investissem no seu andar, alvo de novas atenções e vigilâncias. Para isso surgiram as aulas de ginástica nos clubes freqüentados pelas elites, definindo verdadeiros cânones da feminilidade: se o tronco e os braços permaneciam finos e frágeis, as pernas e os quadris deveriam ser trabalhados.A entrada das mulheres da elite no espaço público da cidade foi marcada por uma série de rituais. Elas estavam cada vez mais nas ruas, mas deviam sempre andar acompanhadas e só poderiam ir a locais específicos em horários precisos. Essa ocupação da praça pública estava longe de corresponder à experiência masculina, marcada por maior intimidade, por um usufruto prazeroso do espaço urbano, aos quais vários memorialistas da São Paulo da época se referem. E esta última fronteira atravessava as classes sociais: definitivamente, as massas urbanas eram, na época, antes masculinas que mistas.
São Paulo de Piratininga: de pouso de tropas a metrópole. José Alfredo Vidigal Pontes. Terceiro Nome, 2004.São Paulo, 1860-1960: a paisagem humana. Fernando Portela. Terceiro Nome/Albatroz Editora e Produtora, 2004.As imagens que ilustram esse artigo foram retiradas dos livros acima.
Mônica Raisa Schpun É doutora em história pela Universidade Paris VII e leciona história da imigração na École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris. É autora de Beleza em jogo: cultura física e comportamento em São Paulo nos anos 20, Boitempo/Senac, 1999

2 comentários:

ALBA BRITO MASCARENHAS disse...

Querido colega Prof.Calasans, entrei no seu blog hoje e descobri que você escolheu o mesmo fundo que eu escolhi para o meu blog; fundo de intelectual. Bem, adorei seu blog que conta histórias da nossa Terra. Claro, um professor de História certamente faria isso em um espaço tão democrático como é a internet. Como professora achei o blog muito útil e com certeza aqui tirarei minhas dúvidas históricas. Continue, será uma ferramenta indispensável a todos os nossos colegas. Terei prazer em divulgá-lo. Abraços, Alba.

ALBA BRITO MASCARENHAS disse...

Desculpe Calasans, seu fundo não é igual ao meu...kakakaka....na realidade o meu primeiro fundo do blog foi igual ao seu, mas eu mudei pra um fundo com livros, mas quando vi o seu, lá no meu inconsciente, achei que o meu era igual; olha que lerdeza, tinha acabado de ver o meu, a idade é assim, chega, não tem jeito. Abração, Alba.

P.S. Esse comentário do esquecimento não precisa ficar publicado, né? PARABÉNS PELO BLOG!!!!